Aqui existiu uma menina que, antes de se sentir segura em sua identidade, por muito tempo se viu como a única. A única menina negra, a única com cabelos cacheados, ou a única com questões que suas amigas brancas não tinham, nem mesmo a sua mãe. A menina que fui viveu e cresceu em ambientes nos quais ela era a única menina negra. Em um mundo no qual a representatividade era escassa. As Barbies ainda eram apenas loiras, e na Disney, as princesas também não se pareciam com ela. Nada do que ela gostava se assemelhava a ela.

Durante a infância, era estranho escolher qual personagem queria ser em determinada brincadeira ou qual integrante daquela banda se identificava mais. Às vezes, ela se via em outras crianças que tinham a mesma cor de pele e cabelo que a sua mãe dizia ser muito bonitos, só não entendia por que essas mesmas crianças diziam que apenas o cabelo liso e a pele branca eram legais.

Foi então, num belo dia, depois de muito procurar algo que a representasse de verdade, que sua professora, a Heloísa, trouxe um livro chamado “Menina bonita do laço de fita”, e ela ficou muito surpresa, pois pela primeira vez a personagem de uma história que ela tinha adorado muito se parecia com ela. E além de tudo, essa personagem era bonita. Uau! Pela primeira vez, ela se viu verdadeiramente bonita e se encantou ao ver que aquele livro reconhecia isso e era capaz de mostrá-la como sua mãe dizia. Identificou-se com a leitura com verdade, coragem e como um espelho mágico, que a refletia e revelava como ela sabia que era, mas nem sempre era vista pelos outros.

Talvez aquela professora não saiba o quão importante foi aquela leitura, o quanto a frase “Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo pra ser tão pretinha?” dita de maneira tão doce, como se fosse o coelho apaixonado da história, ainda ressoa aqui, quando a menina pretinha que fui e ainda sou hoje precisa reafirmar sua identidade.

Assim, a minha professora, quando eu tinha uns 5/6 anos, por meio de um livro, mostrou-me o lado bonito de ser uma menina negra e me explicou de onde vinham todos os meus cachinhos e a cor da minha pele, que lembrava a cor do grão de café. A menina negra que fui, em meio a tanto preconceito, teve a professora Heloísa e tantas outras pessoas especiais.

A representatividade é crucial. Leiam livros de autores e personagens negros, consumam arte que tenha essas pessoas como protagonistas, presenteiem crianças com bonecas e bonecos negros. O que você tem feito para contribuir para um mundo sem preconceitos para as nossas crianças? Vamos juntos criar um mundo melhor e mais inclusivo.

É essencial que continuemos a promover a diversidade e a inclusão em todos os aspectos da vida. Cada gesto, por menor que seja, pode ajudar a construir um mundo mais justo e igualitário para as próximas gerações. Juntos, podemos e devemos fazer a diferença, proporcionando oportunidades e representatividade para todos.

Texto elaborado por Lysandra Menezes  – Auxiliar de coordenação da POPPINS