Outro dia eu estava na fila do banco, atrasada, cansada, com meu estômago roncando de fome, pensando no “pepino” que teria que resolver ali e todos os outros me aguardavam imediatamente quando eu saísse de lá. Eram tantas coisas “adultas” que passavam em minha cabeça que levei um tempo para enxergar uma mãe amorosa que se divertia contando uma história que utilizava os dedos da filha como personagens. A pequena olhava encantada para sua mão, enquanto escutava atenta a voz da mãe. Deixei meus pensamentos de lado e olhei a cena mais a fundo, na hora, meus olhos marejaram. Minha mãe contava essa história, olhando a cena foi possível sentir os dedos da minha mãe tocando os meus. O coração se encheu de um sentimento bom, acho que não sei nomeá-lo, na verdade, nem sei se existe nome para ele. É aquele sentimento que te transporta para a infância e te faz lembrar de um aconchego. Me dei conta que fui arrancada da minha realidade e levada para uma memória afetiva. ​

Passei o dia reflexiva, me peguei pensando no cheiro da praia nas férias de verão, no CD de sertanejo que embalava minhas viagens de carro, no gosto do bolo de fubá da minha avó, lembrei do nome da minha boneca favorita, de acordar na manhã de páscoa e ver que o coelhinho tinha deixado diversas pegadas no porcelanato preto da sala de casa e no perfume que meu pai usava só em ocasiões especiais. Acessei parte das muitas memórias afetivas que tive ao longo da infância e refleti na importância que elas tiveram para mim.

Como Pedagoga e estudiosa da primeiríssima infância, conheço todos os benefícios teóricos que a memória afetiva traz. Sei que o estímulo sensorial é capaz de acessar em nossos cérebros memórias de longo prazo que nos remetem a momentos bons. E que a construção desses momentos nos formam como seres humanos.​
Mesmo com toda a teoria adquirida, ser transportada para momentos felizes, de aconchego, me fez ter um novo olhar sobre a importância dessas boas memórias. A vida adulta as vezes nos consome de uma forma que é difícil acessar a leveza e o amor dos momentos que nos construíram como pessoa. Mas conectar-se com eles muda o nosso olhar sobre o dia-à-dia.​

Por fim, um lembrete que nunca é demais falar. Se você convive com uma criança, seja no seu ciclo familiar ou profissional, proporcione a ela memórias afetivas. Crie momentos felizes, abuse dos estímulos sensoriais. Façam coisas que são só de vocês. Até porque, essa criança um dia crescerá e pode ser, que em um dia difícil, na fila do banco, a memória afetiva que ela criou com você, a salve da loucura da rotina e traga o aconchego necessário para ter um dia mais feliz.

Fernanda Raluy | Coordenadora de Operações da POPPINS e Pedagoga